Meu caro amigo
Sem um carinho ninguém segura esse rojão
Naquele sábado, enquanto eu amanhecia vagarosamente, passando meu café, aquecendo meu pão, pensei: queria poder assar um bolo pra ele e servir minha amizade, que permanece onde sempre esteve.
Vivemos tempos em que é difícil reconhecer um amigo em meio a tantos disfarces. Falo da coisa real: amizade desvinculada de utilidade. O querer bem a quem nada tem a oferecer além de si mesmo. Raro, cada vez mais raro.
Nos acostumamos a um mundo que nos ensina que mais importantes do que as pessoas são suas circunstâncias. As redes sociais transformaram gostar em like e despiram o verbo do seu sentido. Dou like na sua foto ou no seu texto não porque realmente gostei do que você publicou, mas porque pode ser útil pra mim “gostar” de você: por sua relevância, sua influência, sua fama ou sua grana. Assim vamos distribuindo corações coloridos e chamando a isso amizade.
Naquela manhã eu senti vontade de assar um bolo e passar um café pra um amigo que perdeu tudo. Tudo que alguém pode perder. E me dei conta de que talvez seja essa a maior prova a que se pode submeter uma amizade. A pessoa não tem mais nada a lhe ofertar a não ser sua presença. Talvez nem a presença. Porque, quando as perdas são muito profundas, só a fuga temporária alivia o peso de tantos adeuses. É nesse momento em que já nem a presença o amigo tem a dar — e, ainda assim, você gostaria de assar um bolo pra ele —, é precisamente nesse momento que se descobre no verbo gostar um sentido que os likes jamais poderão alcançar.
Meu caro amigo, receba meu bolo imaginário. Eu lhe perdoo se não me faz uma visita. À distância, a gente vai se amando, que também sem um carinho ninguém segura esse rojão.


