Liberdade: prato do dia
Há poucas coisas na vida de que eu goste menos do que de rotina, essa inimiga do livre-arbítrio
“O café da manhã é servido das 07h às 10h.” Eis a frase que mais me alegra ouvir, talvez até mais do que “eu te amo” ou “o salário cai na conta amanhã”.
Trata- se de uma espécie de senha pra felicidade. Anuncia que acabo de chegar a um lugar que não é minha cidade, adentrar um cotidiano que não é o meu. Há poucas coisas na vida de que eu goste menos do que de rotina, essa adversária do livre-arbítrio.
Coleciono muitos cafés da manhã memoráveis fora de casa. Bolinhos de estudante na Bahia, bolo de rolo em Pernambuco, mingau de tapioca em Belém, queijo do Marajó com geleia de cupuaçu em Soure, cuca de maçã em Cambará do Sul. Figos rubros e chouquettes em Paris, panquecas com xarope de maple em Nova Iorque, bagels em Montreal, croissants feitos com a melhor manteiga das galáxias na Bretanha, sanduíche de bacon em Londres, tortillas mornas nos cestos em Oaxaca, medialunas douradas em Buenos Aires. Pão na chapa com uma boa média em qualquer lugar do Brasil.
Mas a frase com que inicio essa crônica me agrada mais pelo prenúncio de alforria do que propriamente pelo conteúdo do que me será servido nos desjejuns dos dias seguintes.
Sou uma criatura angustiada. Um problema pendente de solução é o terreno em que caminho mais confortavelmente, o que só prova que zona de conforto nem sempre é algo agradável. Me acostumei, ao longo da vida, a me preocupar. O trabalho foi entregue? A conta está paga? O seguro contra incêndio foi renovado? Os exames dos pais estão em dia? Há sempre uma pergunta como essa bailando no salão da minha mente de modo a assegurar que eu jamais me desconecte da realidade.
Viajar é o único verbo que sei conjugar fora desse modo de funcionamento. Há uma chave que o mistério aciona quando eu pego a estrada ou tomo o caminho do aeroporto. Não sei explicar como nem por que razão isso acontece, mas, enquanto dura a viagem, toda a minha energia parece concentrada em uma única tarefa: ser feliz. A fantasia entra na arena e leva a nocaute a realidade.
Por isso, seja o que houver no cardápio dos cafés da manhã fora de casa, a iguaria com que me farto é sempre a mesma: liberdade.


