Nó na garganta
A esquina do pensamento onde a falência da Estrela, a morte de Carlo Petrini e o bolo de laranja de minha avó se encontram
Leio que a fabricante de brinquedos Estrela pediu recuperação judicial e me dá um aperto no peito. Mais um pedaço da minha infância é arrancado.
Os leitores mais jovens nem saberão o que é Estrela. Os mais velhos provavelmente dirão que é uma vergonha gastar meu lamento com um capitalista que enriqueceu plagiando brinquedos americanos que vendia sem pagar os direitos devidos.
Os mais românticos entenderão que não sofro pela empresa, mas pelo que significa ver sumir do mapa a responsável pelo entusiasmo da menina que pulou nas abas de um Pogobol (o meu era verde e roxo, lembro com nitidez) ou pela alegria com que rasgou o papel de presente, tirou da caixa a boneca e arregalou os olhos enquanto ela patinava pela calçada, entoando junto: la-le-li-lo-Lu Patinadora. São símbolos de um tempo em que as crianças se divertiam nas ruas, em grupo e sem pressa. Muito diferente da vida que levam as crianças de hoje, olhos presos numa tela, assistindo a vídeos gravados em velocidade acelerada.
Meu nó na garganta não é pelo CNPJ que agoniza, mas pelo lembrete de que o mundo mudou — o meu e o nosso. E também pelo fato de que a notícia não me deixa esquecer que, a partir de certa altura, a vida passa a ser uma coleção de despedidas. A cada ícone da nossa infância que desaparece, a cada ídolo que morre, a cada amigo ou parente que parte, um pouco de nós vai embora também.
Quando achava que a despedida da semana seria a do fabricante dos brinquedos que alegraram minha infância, descubro que estava enganada. Haveria outra imensamente maior. Três dias depois de ler sobre a falência da Estrela, leio sobre a morte de Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, homem que dedicou sua jornada a lutar contra a falência do planeta.
Petrini entrou na minha vida quando bonecas e bolas e jogos de tabuleiro já haviam saído. Quando eu havia descoberto uma brincadeira ainda melhor: a cozinha. Muito do que ele nos ensinou está simbolizado no que representa uma comunidade em torno de uma mesa: o manifesto que nos alerta que a felicidade não está em produzir mais rápido pra acumular mais e mais bens materiais; está em nossa relação com o outro e na relação que, juntos, construímos com a terra e tudo aquilo que ela nos dá. Eis o que faz do ato de cozinhar algo tão fundamental.
O prazer de cozinhar pra alguém ou de que cozinhem pra nós não é apenas pilar de um mundo melhor. É também um dos poucos truques de que dispomos pra driblar nossa finitude, justamente pelo poder que tem a refeição compartilhada de eternizar as pessoas com quem se esteve à mesa.
Minha avó Solange já não está aqui, mas sua receita de bolo de laranja segue comigo e sempre que a releio, a mãe de minha mãe reaparece segurando o tabuleiro recém-saído do forno. Tia Ivone já se encontra em outro plano, mas a recordação dos rissoles de carne que ela fazia pro meu pai opera a mágica que a põe de novo diante de nós.
Tia Alice também já se despediu do corpo que habitou, mas o sabor de seus rissoles de camarão ainda me acompanha. Toda vez que me lembro deles parece que é novamente junho em Lisboa e estamos em seu apartamento na Lapa – que hoje é morada de outra pessoa, mas na minha memória será sempre o lar de Alice e terá sempre a mesa posta com seus fabulosos rissoles.
Minha tia Cida nos deixou há pouco mais de um ano e, no entanto, tenho absoluta certeza de que estará comigo toda vez que eu comer uma esfirra ou amassar uma bolinha de chanklich num rio de azeite, sob uma chuva de za’atar.
Fazer uma refeição nunca é apenas sobre comer. É também sobre quem come conosco. Sobre quem vai permanecer à mesa mesmo depois de as cadeiras estarem vazias.


