Churrasqueira gourmet
Nas últimas décadas, a palavra “gourmet” passou a andar de mãos dadas com tudo aquilo que o homem é capaz de piorar
Eu esquadrinhava o apartamento no prédio da década de setenta enquanto ouvia o corretor ressaltar, de dez em dez minutos, sua credibilidade: era um profissional transparente, que não esconde os defeitos de um imóvel. Pra cada vantagem enfatizada, ele apresentava uma desvantagem.
Foi assim que, ao me levar à área comum do pequeno edifício, ele anunciou: “tem churrasqueira, mas aviso logo que não é churrasqueira gourmet”. Disse isso compungido, envergonhado, quase pedindo desculpas. Eu o tranquilizei: “senhor, isso é música pros meus ouvidos”. Incrédulo, ele não conseguia entender meu encanto diante daquela churrasqueira antiga de pedra, ao lado de uma grande mesa também de pedra, ambas cercadas por árvores, muitas árvores, nada mais.
Nas últimas décadas, a palavra “gourmet” passou a andar de mãos dadas com tudo aquilo que o homem é capaz de piorar. O homem ousou, por exemplo, manchar nossa lembrança dos pipoqueiros que povoavam entradas de cinemas, ao criar a pipoca gourmet, que ganhou a companhia de ingredientes que vão do bacon ao leite condensado. Atreveu-se a criar o azeite trufado, esse crime inafiançável. Sem medo de punição, ultrajou o óleo primordial que unge nossas refeições há séculos e cuja inviolabilidade resistiu por milhares de anos até que um desavisado com excesso de autoestima achasse que podia melhorar o trabalho de gregos e fenícios.
Naturalmente, a churrasqueira não escaparia. Diante dos tijolinhos rústicos de sua estrutura e do piso de pedra ou lajotas, o homem pensou: e se eu usar porcelanato? E no lugar das linguiças sem procedência conhecida e dos cortes disponíveis no açougue da esquina, entrou a imposição de cortes com nome e sobrenome, comprados na boutique de carnes.
Até hoje, ninguém foi condenado por nada disso em tribunal algum do País. Depois não querem que a gente reclame do Judiciário.
O corretor fitava a velha edícula e, em silêncio, observava meu deslumbramento diante dela. Era perceptível um grande ponto de interrogação em cada uma de suas pupilas. Também em silêncio, eu pedia a São Judas Tadeu, santo das causas impossíveis, que mantivesse aquela churrasqueira protegida do poder de destruição de um saldão na Leroy Merlin.


