Casa
Uma casa é mais que seu chão, suas paredes, suas vigas
Agradeci à empresa de mudanças, fechei a porta, fitei as dezenas de caixas onde minha vida estava empacotada. Pensei: o que não foi resolvido até agora vai ficar como está.
Ela olhava, olhava e, movida pela melhor das intenções, me soterrava em perguntas.
— Mas essa rachadura no piso da cozinha? Não vai consertar?
— Não. Já tenho solução pra isso. Comprei um tapete bonito de taboa.
— Mas embaixo vai continuar quebrado…
— E debaixo da maquiagem não moram nossas rugas? Sob o tonalizante não estão nossos cabelos brancos? Não é assim que a gente vive? Com a casa não é diferente.
Ela olhava, olhava. Ainda inconformada, insistiu:
— Mas vai mesmo deixar esse piso rachado?
Resolvi também insistir:
— É que, pra mim, a casa não é o piso ou a parede. A casa são as flores que a gente põe no vaso, o bolo que a gente leva à mesa.
Silenciou. Achei que entendeu. Se não entendeu, ao menos aceitou.
De minha parte, honrei meu discurso. Dias depois da aterrissagem entre caixas e malas, comprei as primeiras flores. Uns dias mais e reestreei a batedeira e o forno. Quando o perfume do bolo ficou maior que os limites da cozinha e ocupou a sala, eu sabia que já podia dizer: estou em casa.
Rachadura no chão? Que rachadura? Já não lembro.


