Bar Xavier
Antídoto contra a cidade-empresa
Tenho como companhia constante um pequeno grande livro em que Aldir Blanc fala sobre a infância em Vila Isabel, sua Pasárgada. No belo prefácio, Luiz Antonio Simas nos alerta sobre a insanidade de viver num tempo em que “a cidade é empresa, a escola é empresa, o botequim é empresa, a universidade é empresa, a imprensa é empresa, o hospital é empresa, a igreja é empresa, rapinagem é empresa, a escola de samba é empresa, o time de futebol é empresa”.
A cada ano, o capitalismo parece abocanhar mais um pedaço do pouco de mundo que resta operando fora da lógica de empresa. É preciso reconhecer os oásis que resistem. Em matéria de bar, o Xavier, na Tijuca, é oásis. Um desses lugares que salvam os cariocas da belmontização dos botequins.
O espaço se resume a um diminuto balcão, mas a calçada é o verdadeiro salão e ainda garante, como cortesia da casa, a vista pra uma das praças mais bonitas do Rio de Janeiro, a Xavier de Brito.
Diante da lousa com o cardápio do dia, é possível fechar os olhos e deixar o dedo escolher seu rumo sem condução. Onde quer que a escolha repouse, há grandes chances de resultar coisa boa. Porque comida ali é coisa séria, não é cenografia. O que me dá certeza disso é saber que no comando está Cezar Cavaliere, cujo trabalho acompanho há algum tempo. O Botica, em Botafogo, teve, pra mim, a melhor cozinha de bar da cidade enquanto Cezar esteve lá. Quando ele se mudou pro Bar Xavier, segui seu rastro.


Numa tarde de domingo me acomodei e passei ali um par de horas de puro júbilo, cercada de gente do bairro, com suas crianças e seus cachorros. No prato, comida tremendamente boa. Empadas de queijo douradas, massa fina e delicada, apenas o suficiente pra amparar o recheio cremoso. Salada de batatas com camarão, temperada com elegância e precisão. O croquete de carne, fritura perfeita, tinha recheio de carne mesmo, não de creme sabor carne.


A rabada chegou mergulhada num molho que tinha uma surpreendente nuance de canela. O escabeche de jiló, de tão bem-feito, era capaz de converter os detratores da polêmica iguaria. A carne assada… O que dizer da carne assada? Coisa de quem sabe o que faz. Não sei se minha mãe me perdoará, mas aqui trabalhamos com a verdade: a carne assada do Xavier é melhor que a dela — e eu repito isso, se for preciso, mesmo ciente de que não se deve bulir com comida de mãe.



A conta? Metade do que paguei semanas antes num lugar da moda, fruto de reforma milionária que lhe rendeu enquadramentos altamente instagramáveis, mas a cuja cozinha falta algo que o dinheiro não compra: alma.


