Adega São Nicolau
O conforto do casulo e a certeza de ser bem alimentada
Sou o tipo de pessoa que gosta de se acomodar nos pontos mais escondidos dos restaurantes, onde praticamente não seja vista. Poderia explicar de forma apenas racional, dizer que sou um tanto tímida, que não gosto de exposição, aprecio o resguardo. Mas, no fundo, acredito que a razão não dá conta de explicar tudo. Penso que há mais que isso: por onde quer que eu ande, estou sempre em busca dos cantos ou quinas, como se neles, de algum modo, eu me sentisse protegida. Não se trata de segurança propriamente, mas de uma espécie de retorno a um aconchego primordial de que o mundo diariamente nos despe desde que nascemos. E essa percepção de conforto e proteção deixa o corpo mais à vontade pra vivenciar o prazer: seja à mesa ou na plateia de um teatro.
Agora, imagine um restaurante erguido numa viela que, de tão estreita, parece um casulo, território resguardado de quase toda interferência do entorno. Assim é a ruazinha onde faz morada a Adega São Nicolau, na cidade do Porto, em Portugal. Não bastasse isso, a casa fica em frente a uma grande parede de pedra, com ares de fortificação.
O salão lembra a atmosfera de um vagão de trem. Já de suas mesas externas é possível vislumbrar o movimento no bairro da Ribeira praticamente sem ser visto por ele. Um lugar feito pra mim, sob medida. Sem o estorvo da exposição, depositei toda minha energia em saborear o que me foi servido – que, na tarde em que lá estive, não foi banal. Indefectíveis alheiras fritas. Bacalhau com batatas e cebolas, tudo ungido com bom azeite. Toucinho do céu untuoso, um deleite à altura da minha gula e, de quebra, um afago na memória.
A sensação de recolhimento e a certeza de ser bem alimentada deixaram em mim, por um par de horas, a impressão de voltar pro calor do abrigo que só as barrigas das mães nos oferecem, antes de inaugurado o desconforto do mundo.





